500 cartas de (des)amor
sábado, 7 de março de 2015
#8
São Paulo, 24 de novembro de 2005
Livi,
A embarcação segue. A vista é do horizonte que persigo e não alcanço. A paz se encontra onde existe história de domingo pra contar. Eu chego quase lá. Não sei dizer se nesses meses que se passaram sem te escrever (e eu sinto muito), cheguei tão perto ou ainda mais longe de alcançar. É sempre até o limite e depois desde o inicio. Minhas manhãs ainda perseguem o sol. E a saudade canta a casa, corre as cortinas. Eu te encontro num instante em algum canto e de repente você não está mais lá. É vai e vem. E daí eu obrigo a atenção a se atentar com algo mais real. Viro os olhos pr'outro lado e teus passos seguem a qualquer lugar que o você em mim esteja indo. E eu te deixo. E estico o tempo e me empenho em ignorar os sinais.
A música toca. Me pego cantando e me corrijo. Mas não sai daqui. Não vai embora. E os dias seguem. E é sempre igual. Eu nunca me decido por nada quando o assunto é teu sorriso. Não me decido, mas ainda que não, quero consumir cada instante dele. Anseio vê-lo surgir, dar a volta ao mundo, teus olhos fecharem pra se esconder, e teu rosto retornar. Sereno. Como quem acabou de voltar de uma viagem à Lua. Como quem não queria voltar de lá. E queria me levar junto. Pra sempre.
O horizonte, às vezes, parece tão tocável, Livi. E tão sereno. Sereno feito teu rosto depois do teu sorriso de volta ao mundo. O horizonte tem o som do teu riso. E o gosto da tua voz. Como se nada nunca tivesse quebrado. Como se nada nunca tivesse sido deixado pra trás.
Livi, por onde é que andava a linha do horizonte quando eu decidi fechar a porta atrás de nós?
Daniel.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
#7
São Paulo, 29 de maio de 2005
Daniel,
Teus olhos não são os meus. Teu sorriso foge de mim. Mas teu cheiro fica. Sempre fica. Anda pelo guarda-roupa. Tá em todo canto pra me lembrar de não te esquecer. Mas não te esqueceria nem se eu pudesse.
Olivia.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
#6
São Paulo, 04 de maio de 2005
Livi,
Eu sou fragmento de domingo. E a cada novo domingo, me fragmento mais, me despedaço mais. Acho que o nome disso é saudade, Livi.
Saudade, sabe?
Dessas que machuca o rosto da gente, racha o lábio e enfraquece o joelho.
Acho que é dessas saudades assim, do nosso amor.
Porque, nesses últimos meses, o meu corpo balança e voa contra a parede sempre que acordo e noto a ausência do teu corpo na cama que parece funda e infinita sem você.
A saudade corta.
A saudade é fragmento, Livi.
Fragmento do que nós fomos, do que nós não fomos, do que nós poderíamos ter sido e do que nós queríamos ter sido. (E o que era mesmo?)
E do fragmento resta quase nada.
Do fragmento resta só o domingo, Livi.
Eu não sei que dia da semana é hoje, mas desejo em silêncio que seja domingo.
Daniel.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
#5
São Paulo, 20 de março de 2005
Daniel,
Hoje é domingo.
A tua ausência dói.
E dia desses eu também sonhei com você. Tu me dizia que sentia muito, mas que precisava ir. Tua voz doía em mim. E os teus olhos estavam marejados. Tu ficava repetindo a mesma coisa: "Livi, me desculpa, mas eu preciso ir. Livi, eu... eu preciso ir. Me desculpa." Então, de repente, você sumiu e eu pareci estar caindo; quando meu corpo bateu no chão, eu acordei.
E acordei com teu gosto. Com o gosto do teu beijo de café. E o teu meio sorriso estava amarrado na minha cintura. Ele parecia estar me fazendo dançar, mas depois me dei conta de que era apenas a solidão gritando alto meu nome em meio ao dia cinza.
Eu não vim dizer muito.
Porque hoje a dor de não te ter amanheceu inflamada.
E eu não consigo nem por os pés no chão.
Eu não vim dizer muito.
Eu vim só porque hoje é domingo.
Olívia.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
#4
São Paulo, 3 de março de 2005
Livi,
Dia desses sonhei contigo. Sonhei que a gente casava. E, ah, Livi... Você tava tão bonita naquele vestido branco! Tão bonita!, que eu lembro de ver meus olhos marejados, quando você vinha caminhando em minha direção naquele tapete vermelho. Você disse sim, Livi. E eu lhe sorri um sorriso enorme. Você me retribuiu com um beijo. E eu calmamente repousei uma aliança dourada em teu dedo. Então eu acordei.
Os tempos por aqui tem sido mornos, a propósito. O Sol tem parecido pequeno, calmo. Invade a sala pela janela e dorme silencioso num pedaço do sofá e em grande parte do chão. Principalmente durante as manhãs. Eu sempre sento na cadeira com uma xícara de café e fico observando a luz invadir a sala e partir repetidas vezes, mas sem pressa. Coisas assim me fazem lembrar os nossos domingos.
Te lembra dos nossos domingos, Livi?
Era sempre aos domingos que nós íamos até aquela sorveteria de mãos dadas, bem de manhãzinha. Era sempre aos domingos que a gente passava a tarde toda no sofá assistindo qualquer coisa desinteressante na tevê, só para ter uma desculpa pra ficar junto. E era sempre aos domingos que eu lavava a louça pra você, só pra ver a graça do teu riso singelo por causa da minha forma desajeitada de fazer as coisas.
Era sempre aos domingos que nosso amor transbordava, pra segunda de manhã bocejar calminho, bonito, renovado.
Eu sinto falta dos nossos domingos, Livi; vezenquando sinto teu cheiro pela casa, na minha cama. Mesmo que teus pés jamais tenham tocado meu chão de hoje. É triste e quase sempre dói. Acho que a saudade em si, e principalmente em mim, no fim das contas, acaba por ter uma graça um tanto melancólica: a melhor parte da saudade é poder matá-la. Eu me conforto com esse pensamento; com o pensamento de que um dia vamos sair pra tomar um café ou ir até a tal sorveteria pra colocar a conversa em dia. Eu me conforto com o pensamento de que um dia vou lhe sorrir outra vez. E vou desenhar tua silhueta no meu abraço até depois de me despedir, até repousar a cabeça no travesseiro depois de chegar em casa, com a alma repleta da tua voz e o corpo com pedaços do teu cheiro.
Livi, aos poucos, devagarinho e ancorando em uns tantos portos por aí, minha embarcação tá voltando pra terra firme outra vez.
Daniel.
terça-feira, 16 de abril de 2013
#3
São Paulo, 12 de fevereiro de 2005
Daniel,
Tu notou como esses últimos dias tem sido frios? Tenho passado mais tempo em casa do que o normal. E tenho, também, pensado em passar uns tempos em Porto Alegre. Passar um tempo com a minha mãe e com os meus irmãos. Não que o clima lá vá ser tão diferente daqui.
Tem feito bastante sol, eu sei. É fevereiro, verão. E chove só no fim da tarde. De todo modo, não tem feito frio nesses últimos dias. Talvez seja só do lado de dentro do apartamento. Do lado de dentro do meu peito. Falando assim, acho que estou soando um tanto chata. Eu estou?
Eu tenho conhecido alguns livros, bandas, filmes e pessoas que tenho certeza que você também gostaria de conhecer. Acho que, no fim das contas, todas essas coisas tem estado tão pertinho de mim porque me lembram você, me trazem teu gosto bem na pontinha dos lábios, sabe.
Eu tenho sentido saudade. Passei o ano novo na praia. Fui sozinha, mas acabei fazendo amizade por lá. Não foi tão ruim quanto eu pensei que seria. Antes de 2005 começar, eu vivi você. Não que isso seja algo fácil de entender. Eu te escrevi uma carta na areia. Mas a água veio e carregou as palavras consigo para o oceano. Foi bonito. E a intenção era mesmo de que a água a levasse embora, na vã esperança de que, onde quer que tu estivesse, o mar cantaria as palavras que eu escrevi pra você. Talvez tenha dado certo.
E, Daniel, na carta que escreveu, tu me disse que achou injusto deixar que a minha embarcação afundasse junto da tua, te lembra? Eu só queria agradecer por pensar em me proteger. Mas, sabe, arrancando teu abraço de mim, os dias tem sido assim, frios. A minha embarcação afundou do mesmo modo e de forma mais triste, por estar só. Eu te seguiria onde quer que tu fosse. E se minha embarcação tivesse afundado junto da tua, ao menos meu peito teria se afogado sentindo-se plenamente feliz.
Olívia.
sexta-feira, 29 de março de 2013
#2
São Paulo, 24 de dezembro de 2004
Olívia,
Engraçado como nunca consegui te chamar de Olívia. Nem por escrito. Nem por pensamento. Até hoje, se penso em você, se vejo ou ouço algo que me lembra você, é sempre Livi. Será que posso continuar com essa mania para lhe escrever também? Espero que sim. Pois bem. Vou começar outra vez.
Livi,
Antes de ir embora eu lhe disse que a música havia parado de tocar. Sim, eu disse. Eu me lembro. Mas, sabe de uma coisa? Às vezes ela ainda ecoa em mim. Às vezes eu estou andando pela cidade, ou lendo livro dentro do quarto, ou até mesmo ouvindo uma música, e eu a ouço tocar. Baixinho. Devagar. Quase parando o tempo. E, Livi, naquele dia em que você me viu, na livraria, ela ecoou tão alto que eu não pude ouvir nem um dos outros sons ao meu redor. Foi quando eu lhe vi. Logo depois de passar do teu lado. Eu me virei, porque ouvi a música. E você já estava indo embora.
Eu também não entendo como nosso nó se desfez. Ele apenas se desfez. E então eu soube que era hora de partir. Não parti porque deixei de te amar ou por ter encontrado alguém que eu amei mais do que você. Não. Eu parti porque era hora de partir e só. Porque amar e ser amado de volta não significa "pra sempre" algum. Não é sinônimo de felicidade.
Falando assim até parece que eu não estava feliz com você, não é? Por favor, não me entenda mal. Só não é dessa forma que as coisas funcionam. Pelo menos em mim. Os 4 anos junto de você me fizeram ser quem eu sou hoje. E, de um ano pra cá, desde que te deixei, não me encontrei mais em corpo algum, em esquina alguma, em sorriso algum. Você ainda me tem em você, é só saber procurar, pra onde olhar.
Quando eu lhe entreguei aquela rosa, no nosso segundo encontro, e lhe prometi meu amor, eu falava sério. Eu falei pra vida toda. Porque desde o primeiro momento que estivemos juntos eu soube que você era a mulher da minha vida, que no meu universo você seria única. Mas, Livi, às vezes a gente se perde no meio do vai e vem do mundo, da vida. E a vida veio e foi de mim muitas vezes nos últimos meses em que eu ainda dividia a cama contigo. Ela simplesmente transitava dentro de mim, sem dó. E eu fui deixando a embarcação afundar. Só achei injusto permitir que a tua embarcação afundasse também.
Daniel.
Olívia,
Engraçado como nunca consegui te chamar de Olívia. Nem por escrito. Nem por pensamento. Até hoje, se penso em você, se vejo ou ouço algo que me lembra você, é sempre Livi. Será que posso continuar com essa mania para lhe escrever também? Espero que sim. Pois bem. Vou começar outra vez.
Livi,
Antes de ir embora eu lhe disse que a música havia parado de tocar. Sim, eu disse. Eu me lembro. Mas, sabe de uma coisa? Às vezes ela ainda ecoa em mim. Às vezes eu estou andando pela cidade, ou lendo livro dentro do quarto, ou até mesmo ouvindo uma música, e eu a ouço tocar. Baixinho. Devagar. Quase parando o tempo. E, Livi, naquele dia em que você me viu, na livraria, ela ecoou tão alto que eu não pude ouvir nem um dos outros sons ao meu redor. Foi quando eu lhe vi. Logo depois de passar do teu lado. Eu me virei, porque ouvi a música. E você já estava indo embora.
Eu também não entendo como nosso nó se desfez. Ele apenas se desfez. E então eu soube que era hora de partir. Não parti porque deixei de te amar ou por ter encontrado alguém que eu amei mais do que você. Não. Eu parti porque era hora de partir e só. Porque amar e ser amado de volta não significa "pra sempre" algum. Não é sinônimo de felicidade.
Falando assim até parece que eu não estava feliz com você, não é? Por favor, não me entenda mal. Só não é dessa forma que as coisas funcionam. Pelo menos em mim. Os 4 anos junto de você me fizeram ser quem eu sou hoje. E, de um ano pra cá, desde que te deixei, não me encontrei mais em corpo algum, em esquina alguma, em sorriso algum. Você ainda me tem em você, é só saber procurar, pra onde olhar.
Quando eu lhe entreguei aquela rosa, no nosso segundo encontro, e lhe prometi meu amor, eu falava sério. Eu falei pra vida toda. Porque desde o primeiro momento que estivemos juntos eu soube que você era a mulher da minha vida, que no meu universo você seria única. Mas, Livi, às vezes a gente se perde no meio do vai e vem do mundo, da vida. E a vida veio e foi de mim muitas vezes nos últimos meses em que eu ainda dividia a cama contigo. Ela simplesmente transitava dentro de mim, sem dó. E eu fui deixando a embarcação afundar. Só achei injusto permitir que a tua embarcação afundasse também.
Daniel.
Assinar:
Postagens (Atom)