sexta-feira, 29 de março de 2013

#2

São Paulo, 24 de dezembro de 2004


       Olívia,

  Engraçado como nunca consegui te chamar de Olívia. Nem por escrito. Nem por pensamento. Até hoje, se penso em você, se vejo ou ouço algo que me lembra você, é sempre Livi. Será que posso continuar com essa mania para lhe escrever também? Espero que sim. Pois bem. Vou começar outra vez.

       Livi,

  Antes de ir embora eu lhe disse que a música havia parado de tocar. Sim, eu disse. Eu me lembro. Mas, sabe de uma coisa? Às vezes ela ainda ecoa em mim. Às vezes eu estou andando pela cidade, ou lendo livro dentro do quarto, ou até mesmo ouvindo uma música, e eu a ouço tocar. Baixinho. Devagar. Quase parando o tempo. E, Livi, naquele dia em que você me viu, na livraria, ela ecoou tão alto que eu não pude ouvir nem um dos outros sons ao meu redor. Foi quando eu lhe vi. Logo depois de passar do teu lado. Eu me virei, porque ouvi a música. E você já estava indo embora.
  Eu também não entendo como nosso nó se desfez. Ele apenas se desfez. E então eu soube que era hora de partir. Não parti porque deixei de te amar ou por ter encontrado alguém que eu amei mais do que você. Não. Eu parti porque era hora de partir e só. Porque amar e ser amado de volta não significa "pra sempre" algum. Não é sinônimo de felicidade.
  Falando assim até parece que eu não estava feliz com você, não é? Por favor, não me entenda mal. Só não é dessa forma que as coisas funcionam. Pelo menos em mim. Os 4 anos junto de você me fizeram ser quem eu sou hoje. E, de um ano pra cá, desde que te deixei, não me encontrei mais em corpo algum, em esquina alguma, em sorriso algum. Você ainda me tem em você, é só saber procurar, pra onde olhar.
  Quando eu lhe entreguei aquela rosa, no nosso segundo encontro, e lhe prometi meu amor, eu falava sério. Eu falei pra vida toda. Porque desde o primeiro momento que estivemos juntos eu soube que você era a mulher da minha vida, que no meu universo você seria única. Mas, Livi, às vezes a gente se perde no meio do vai e vem do mundo, da vida. E a vida veio e foi de mim muitas vezes nos últimos meses em que eu ainda dividia a cama contigo. Ela simplesmente transitava dentro de mim, sem dó. E eu fui deixando a embarcação afundar. Só achei injusto permitir que a tua embarcação afundasse também.

                                                                                                Daniel.

terça-feira, 26 de março de 2013

#1

São Paulo, 19 de novembro de 2004


     Ah, Daniel,

  Como eu tentei me desviar do mundo, do teu curso; o quanto eu tentei matar o tempo, apagar as lembranças. Ah, Daniel!, tu me prendeu, me trancou em você, depois soltou a minha mão. Eu fiquei pra trás, eu vi o semblante do teu corpo sumir aos poucos, ao longe, cada vez mais longe. 
  E depois? E depois como eu tentei sorrir mesmo sem você. Mudei de endereço, telefone, pensei até em mudar de nome. Engraçado, não é? Engraçado mesmo foi dar de cara com você naquela livraria hoje, mais cedo, e notar que você ainda lê os mesmos livros, gosta das mesmas coisas e não deixou de lado aquela mania de bater de leve o dedo nas coisas enquanto anda. 
  E daí tu passou bem ao meu lado. Teu cheiro ainda é o mesmo também. Mas tu nem me percebeu, tu não me viu. Eu tratei de ir embora, de fugir. 
  Do lado de fora, ao pisar na calçada, observei os prédios, os carros, o som. Eu amo esse lugar. Foi o lugar em que eu te conheci. Mas nós não pertencemos mais aqui. Não de mãos dadas. Não como um casal. Não como nós. Eu odeio esse lugar. Foi o lugar em que eu te conheci; em que você sorriu pra mim ao dizer adeus (quem sorri ao dizer adeus, Daniel?), em que você fez as malas e bateu a porta, me deixando naquele apartamento, vazio da tua presença. 
  Daniel, até hoje não entendo como foi que o nosso nó se desfez, tu disse apenas que a música parou de tocar. Até hoje não entendo como me senti, como me sinto. Não sei mais se te amo ou não. Mas ter te encontrado me fez querer saber, mexeu comigo. Trouxe-me a ideia louca de te escrever. Espero só que o endereço que tu me deixou para enviar o resto de suas coisas ainda seja mesmo teu. 

                                                                                                         Olívia.